quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Crítica sobre o livro: “A Arte Não Precisa De Justificativa”




A arte não precisa de justificativa
. Será mesmo? De que “arte” H.R. Rookmaaker está falando em seu livro lançado pela Ultimato? Arte com “A” maiúsculo, referindo-se à Belas Artes e ao sistema que a engloba ou arte no sentido genérico do termo que pode abarcar criações nas mais diversas áreas? Foram com estes questionamentos, induzidos pelo título, e pela bonita capa com um desenho abstrato que, imediatamente, encomendei o livro. Ao terminar a leitura, percebi que havia caído no erro mais elementar do universo dos livros: Julguei o livro pela capa, e julguei mal.

Como se o título do livro fosse mero adereço
, o que Rookmaaker faz ao longo de setenta páginas é tentar justificar uma espécie de arte que ele considera boa, perfeita e agradável. No primeiro capítulo ele diferencia o que chama de arte superior de arte inferior, sendo esta última, chamada de arte comercial, e que, por estar atrelada a interesses econômicos, em sua opinião é destituída de imaginação e qualidade. Sendo assim, ao tratar de artes visuais no decorrer do livro, o autor está referindo-se a Belas Artes e podemos concluir isto através dos exemplos de artistas usados por ele. Pois bem, se o assunto é Artes Plásticas, o meu primeiro questionamento só vê resposta na realidade de que a Arte precisa sim de justificativas. A Arte se alimenta e é alimentada pelo sistema em que ela esta inserida. Um sistema que envolve críticos de arte, curadores, exposições, galerias, museus, bienais, universidades, a História da Arte e por aí vai. Como em qualquer outro sistema, nenhuma peça está neutra ou independente, sendo tudo carente de justificativas e justificativas coerentes com o sistema.

Se Rookmaaker tentasse justificar
o que ele considera Arte a partir dos códigos e limites impostos pelo sistema das Artes Plásticas, tal qual podemos acompanhar pela História da Arte, já seria contraditório com a idéia da não necessidade de justificativa que ele pretende sustentar, porém, seu erro maior foi que, além de impor inúmeras justificativas para a Arte, ele o fez baseado em uma ética pessoal, moralista e anacrônica.

O autor, ao longo do livro, cai num poço tão profundo de contradições que terei de identifica-lás por partes. Para começar, a idéia básica presente no título é a de que arte por si só é uma manifestação da graça de Deus que concede ao homem criatividade. Sendo assim, a arte não precisa conter uma mensagem cristã explícita para ser apreciada com louvor nem nenhuma outra justificativa. Ao mesmo tempo em que afirma isto, o autor (ou seria sua outra personalidade?) aponta diretrizes de como a arte deve ser: “Como a arte está amarrada à realidade, será que ela faz jus ao que representa? Será que o faz de maneira positiva? A arte deve ser clara, nunca tola ou superficial” (pg.51-52). Aqui e em outros trechos, o autor faz a defesa da arte figurativa clássica e renascentista, que reproduzia com fidelidade a realidade do mundo, e, em contraste, desqualifica a arte abstrata que segundo ele “ o que nunca é bom é o abstrato, que significa a negação ou a rejeição da realidade: uma atitude negativa em relação a ela” (pg.65).

Dados os trechos
, nem é preciso apontar a contradição. O que me espanta é saber que um pensador, tido como o mais importante crítico cultural protestante do século XX, consegue, no auge da década de 70, estar tão atrasado e incoerente em relação à sua área de conhecimento.
Ora, esta animosidade com o abstrato e a idéia de vê-lo como pura negação da realidade era algo típico de mentes pouco visionárias e sensíveis no início do século XX, momento em que artistas como Wassily Kandinsky e Piet Mondrian lançam seus manifestos. Daí em diante, as vanguardas modernistas irão todas sofrer ataques como “arte degenerada”, encontrando seu auge de perseguição no Nazismo. Hitler e seus colegas, que consideravam apenas o figurativo clássico como Arte, irão banir da Alemanha toda arte abstrata, valendo-se deste argumento para perseguir, expulsar e matar artistas.

A década de 70
, época em que Rookemaaker escreve o livro, é marcada pelo desenvolvimento acelerado da Arte Contemporânea. O abstracionismo e seus desdobramentos iniciados no início do século já estavam se esgotando e sendo reformulados. É digno de pesar o atraso deste autor que perdeu o bonde do modernismo e nem sequer vislumbrou o contemporâneo. Por uma destas coincidências ingratas da vida, o nosso crítico protestante parecia não saber que os “pais” da arte abstrata tinham uma íntima relação com o protestantismo e as coisas espirituais, sendo a própria abstração uma necessidade declarada de ilustrar o espiritual. Kandinsky teorizou sobre isto em 1912 em um livro lindíssimo com o título: “Do Espiritual na Arte”, Mondrian que era filho de pastor calvinista, teve toda sua obra marcada por estas discussões. Além disso, Rookemaaker deve estar se revirando no túmulo, pois seu livro claramente anti-moderno, incoerentemente foi publicado com uma arte abstrata na capa.

É fato que a igreja cristã está geralmente
atrasada cerca de 30 anos em qualquer discussão sócio-cultural. Quando o assunto é Arte, este número pode ser multiplicado por algumas décadas ou séculos. E agora em 2010, a Editora Ultimato publica um livro de 1977, de um autor que nesta época já acumulava uns cem anos de atraso em sua temática.

Continuando com as contradições, se a arte não precisa de justificativa e nem de mensagem cristã, podemos fruir qualquer obra de arte sem divisão entre sagrado e secular, certo? Errado. Para Rookmaaker a arte precisa obedecer a normas, e normas de DECORO. Parece estranho, mas veja o que ele diz sobre o musical Godspell: “Em nossos tempos a sensibilidade para com o decoro tem se perdido. Um bom exemplo é o musical Godspell. Nele vemos alguns limites sendo negligenciados, um erro contra a norma do decoro. Tratar um tema sublime como a Paixão como se fosse um musical, que por definição é um gênero leve e voltado para o entretenimento, é errado sob qualquer aspecto.” (pg.56)... “Sempre há a questão do conteúdo e do significado” ... “Se a energia da musica for mundana, anarquista e expressar incerteza e até desespero, então o que devemos fazer com ela?” (pg.59). E ao longo do texto ele continua questionando em tom de desaprovação se o rock pode ser adaptável ao cristianismo, afirmando que tem de ter letras corretamente bíblicas, dizendo que o estilo de vida do artista também conta, e ressaltando que tudo deve ser feito com decoro, cristão é claro! O que esperar de alguém que crítica Godspell por falta de decoro? O resultado é um desfile de imposições legalistas do século retrasado.
Honestamente, não sei até que ponto os revisores e responsáveis da Ultimato leram este livro antes da publicação. Tendo em vista o esforço empreendido por tantos líderes cristãos para tentar romper o muro de legalismo que afasta tantas pessoas da igreja (principalmente as que possuem alguma vocação artística), considero este livro um desserviço.

Como última ilustração,
cito o testemunho feito por Rookemaaker na página 62. Uma moça certa vez lhe disse que sonhava em ser artista e lhe pediu conselho. Segundo ele, os desenhos dela não eram tão bons a ponto dele encorajá-la. Então, disse-lhe que não a aconselhava a entrar numa escola de pintura ou arte, pois ela poderia se arrastar anos a fio numa faculdade para no fim acabar com uma pilha de quadros não vendidos no porão. Disse-lhe que deveria tentar desenhar roupas e tecidos.
Creio que este triste relato resume a pobreza e ignorância deste autor em todos os sentidos. Devemos dar graças a Deus por artistas como Van Gogh, para citar um, não terem tido o azar de ter um Rookemaaker como conselheiro. Mais da metade dos grandes artistas não eram tão bons para muita gente pobre de espírito.

Finalmente, não poderia me esquecer
que, na página 72, o autor tem o disparate de chamar Louis Armstrong (o maior gênio do jazz) de palhaço televisivo. Diz que ele “se tornou popular e leviano por causa de dinheiro, criando canções ridículas de ninar para crianças”. Rookemaaker em seu transtorno bipolar, ao mesmo tempo em que acusa, sem fundamentos, Armstrong de buscar o dinheiro, aconselha uma futura artista a não produzir porque possivelmente seus quadros não seriam vendidos.

Meu desejo era ter tido a oportunidade de aconselhá-lo a não escrever nada sobre arte jamais, como não tive, e o estrago está feito, aconselho ao leitor encarecidamente que não compre “A Arte Não Precisa de Justificativa”. Poupe seu tempo e dinheiro e compre um bom livro de Arte. Se o autor for cristão, infelizmente desconfie, o atraso é sério e prejudicial.




Leandro Gonçalves Lança

31 comentários:

Herberth disse...

Pelo que li, sua crítica está mais ligada ao cristianismo e ao cristão do que ao livro de fato..Seu desfecho reflete o preconceito à artistas que façam menção ou que declarem alguma relação com a religião cristã. Ceticismo?

Leo disse...

A crítica é ao livro, Herberth, e ela está fundamentada e explícita ao longo de todo o texto, cerca de três páginas. Você se deteve, pelo comentário, apenas a última frase do texto. A crítica no geral resvala sim no cristianismo pelo simples fato do autor ser cristão e a publicação também. Porém, não é um sintoma de preconceito, mas pósconceito, haja vista que crítico o que tenho lido e o meio que tenho vivido.

João André disse...

Boa Leo!! Otima critima! Alto nivel!
Ixi a ultimato vai de boicotar ..huaha...ou te contratar pra ser revisor de literatura na area de artes..huhua
Compartilhando, longe da mesma perspicacia demostrada, ao ler o primeiro paragrafo, sem chegar na parte das contradicoes, logo me questionei, o que esse autor esta fazendo nao eh justificar, arrazoar ??

Alejandro Mercado disse...

Leo, afirmo que sua leitura é preconceituosa, sim! Falta-lhe a perspectiva que serve de pano de fundo para o que escreve H.R. Rookmaaker. A sua pergunta inicial denota essa falta. Além de julgar um autor por um artigo em forma de livro, que eu chamaria de livreto. Você quer ter um conceito verdadeiramente livre e imparcial, aconselho ler o que o protestantismo reformado calvinista entende por arte partindo do entendimento do que seja a Estética. Com Calvino temos grande medida do início da arte "secular" que assistimos, sobretudo, no período contemporâneo. Um exemplo ilustrativo deste
modelo foi o período no qual Bach
afastou-se da “música luterana” e
foi para Köthen, onde trabalhou
para o príncipe calvinista Leopold
d’Anhalt-Köthen. Foram cinco anos
frutíferos, embora Bach não houvesse composto música religiosa,
ficando restrito à “música secular”. Espero entenda o que digo até aqui e quem sabe possamos dialogar se o espaço for estabelecido para isso. O mérito seu está no fato de se aventurar a falar de algo que bem pode lhe servir como início de pesquisa nesse vasto campo da Estética. Boa sorte...

Juliana R. Lima disse...

Sou ceramista, sou cristã protestante e fiquei ainda mais atiçada em ler o livro após ler suas críticas. Não as desconsiderarei, mas também há um porém, do qual você não parece partilhar: eu tenho a mesma cosmovisão (calvinista) do autor. Embora ele possa estar - quero ler para comprovar - errado em relação à arte abstrata, isso não desmereceria o livro.
Vou ler e volto aqui em seguida. Um livro que li recentemente e gostei - da mesma editora, foi Arte e a Bíblia, de Francis Schaeffer. Ele dá uma perspectiva bíblica da arte. Daí meu interesse nesse livro em questão.
Abraço,


Juliana

Leo disse...

Alejandro, sem desmerecer seu conhecimento em estética...
Parece lhe faltar a perspectiva que serve de pano de fundo para o que eu escrevi, haja vista que seu pano de fundo é Calvino e não a História da Arte. Calvino tem seu valor, mas tente refutar as minhas críticas sob a perspectiva da Arte que é o que proponho a fazer.
Você tem razão quando diz que julgo o autor pelo seu livreto. Infelizmente, devido a carência do meio evangélico na área, o que me chegou as mãos foi somente este livreto até agora, e ponha livreto nisto. Aguardo a publicação de mais material do autor em português, mas, ciente de que, livrinho ou livrão, uma vez escrito, o mal ou bem está feito e passível de críticas.

Quanto a Calvino(?) e Bach, vejo que você (além de fugir das verdadeiras críticas que faço no texto) tenta justificar Rookemaaker ou seu conhecimento pessoal a partir de possíveis realizações que nada tem a ver com a minha fala. Sugiro que leia meu texto novamente e questione com base no texto. Este é o começo de um bom diálogo crítico, quiçá fraternal.

Leo disse...

Olá Juliana,

Fico feliz que as minhas palavras tenham feito surgir em você o desejo de ler o livro, mesmo eu não o sugerindo a quem estuda ou se interessa por Arte. Depois de ler me diz o que achou!

Juliana R. Lima disse...

Léo,

Eu me interessei pelo livro e cheguei no seu blog. Mesmo com suas críticas e sabendo da sua visão arreligiosa - patente no seu texto - eu acho interessante, justamente pelo fato de eu partir da perspectiva do autor, muito embora gostar do livro - a meu ver - não significa endossar cada linha como infalível.

Acho bom a crítica, ela nos faz pensar. E ao gostar de um livro - estou lendo um sobre teologia - posso ter, como estou tendo, discordancias do autor, entende?

Daí que por isso que te disse: vou ler o livro, sim. Após ele chegar e eu terminar de ler esse atual, ele será o primeiro da minha fila (mais de 9 livros), kkk.

E aí, eu volto aqui, com prazer, e lhe conto. quem sabe eu também não faço uma resenha do livro? :-)


Juliana

Alejandro Mercado disse...

Leo, gostei o seu convite ao diálogo. Entendi seu texto e você pode ler o meu novamente para se encontrar com que eu não disse que você está equivocado, afirmei que você não teve o cuidado de verificar o porque das afirmações H.R. Rookmaaker. Para isso devemos nos colocar na perspectiva de quem disse ou escreve algo. Nesse sentido que eu afirmei que você pecou de preconceito. Eu me coloco na sua perspectiva de quem entende de arte. Contudo, sou obrigado a lembrar-lhe que na realidade o que se faz ao falar de arte do ponto de vista Teológico é na verdade falar da estética que é o fundamento de toda arte. E, é claro a visão mais global exige que eu me recoloque de tal forma que possa verificar em relação a que se fazem críticas ou observações deste ou daquele autor. Veja bem, Leo, não digo com isso que você não possa conceituar ou mesmo observar que determinado autor não se enquadre na sua perspectiva, mas somos em certo sentido, impelidos a olhar da perspectiva de quem escreveu e estamos lendo para saber se aquela perspectiva é coerente ou não. Então a partir disso verificar o quanto podemos ou não concordar com esse autor. Isso possibilita construir novos saberes e encontrarmos pontos de contato com outras perspectiva que não a nossa. Não acredito nas coisas acabadas, mesmo as espirituais estão em constante construção. "Antes pensava como menino, fazia as coisas de menino, agora que sou adulto penso e faço as coisas de adulto". O que você pensa, a perspectiva que você tem é parte de um todo chamado conhecimento humano que se soma e complementa com o meu e com o de muitos outros que antes de nós pensaram as mesmas coisas que nós hoje pensamos. Nisso tudo há progresso. Você é a parte que me falta no conhecimento, assim como eu sou o que falta a você. Nesse sentido não há conhecimento individual acabado e perfeito que não possa ser modificado, complementado,feito e refeito, construido, desconstruido e reconstruido... A modo de informação: Sou judeu, hoje cristão reformado, teólogo, filósofo, matemático... e permanente observador do mundo que me rodeia. Aí gosto de Estética, arte em suas mais variadas formas, pintura, escultura, música, literatura. Tudo o relacionado com o belo me fascina. Por isso, Deus é a minha paixão maior!!! De maneira particular o Antigo Testamento coloca o meu olhar em perspectiva para buscar a beleza ali onde aparentemente não se encontra. A Bíblia aguça a minha mente e olhar na busca do Belo...
Um forte abraço,
Alejandro

Leo disse...

Alejandro,

Em primeiro lugar, Rookemaaker não esta falando de estética em seu livro, mas de Arte com "A" maiusculo (acho que você entende esta diferenciação). Eu falo disto neste trecho:

"No primeiro capítulo ele diferencia o que chama de arte superior de arte inferior, sendo esta última, chamada de arte comercial, e que, por estar atrelada a interesses econômicos, em sua opinião é destituída de imaginação e qualidade. Sendo assim, ao tratar de artes visuais no decorrer do livro, o autor está referindo-se a Belas Artes e podemos concluir isto através dos exemplos de artistas usados por ele"...

Em segundo lugar, eu não faço as críticas que fiz com base em uma perspectiva pessoal (Não tenho nada contra o autor) mas sob a perspectiva da Arte e sua História, do Evangelho (onde não há diferenciação entre arte mundana-sem decoro-e arte sacra-com decoro)e da lógica. ora, o título do livro diz que a Arte não precisa de justificativas e o sujeito passa o livro inteiro tentando justificar a melhor Arte em sua opinião, opinião atrasada e moralista? O autor diz que toda arte abstrata é ruim, diz que falta decoro a Godspell, acusa artistas e impede outros de sê-lo, você leu isto ou fingiu que leu? Porque é sobre estas coisas que estou falando e até agora não vi a sua opinião.


Fico feliz também neste diálogo Alejandro, desculpe qualquer coisa...

Um abraço!

Juliana R. Lima disse...

O meu livro chegou hoje, mas estou terminando outro antes dele. Aí lerei o livro em tela e falarei dele como artista plástica e como cristã que sou.

Abraço!


Juliana

Juliana R. Lima disse...

Léo,

Terminei de ler o livro e fiz minha análise. Está aqui http://divagacoesdajuliana.blogspot.com/2011/02/arte-nao-precisa-de-justificativa.html
Não entrei em todos os pontos que vc cita por não ser meu propósito. Entrei na questão do decoro - onde discordo de você e do abstrato onde concordo com você.
Abraço,


Ju

L'Abri Brasil disse...

Caro Leo,

Creio que seu julgamento rápido de Rookmaaker não considera o peso e profundidade que merecem o autor. Parece-me, em sua crítica, que lidou com um amador. Mas suas críticas refletem 1) um desconhecimento do contexto que inspirou tais críticas do autor e 2) uma falta de perspectiva sobre a influência de Rookmaaker em teóricos da arte contemporâneos.

Sugiro, somente, que leia mais, com mais atenção, antes de dispensar o querido Rook.

Atenciosamente,

Rodolfo Amorim.

Leo disse...

Olá Rodolfo,

Sobre o contexto do autor, sei apenas que é cristão reformado,professor e crítico de Arte, membro do Labri como você, fã de Rembrandt e toda arte holandesa impressionista, figurativa é claro, e outras informações biográficas. Sabemos que Rookmaaker viveu a segunda metade do século XX, e modéstia a parte, conheço razoavelmente o contexto histórico da Arte no século passado e no presente. É baseado nestas informações que levanto minhas críticas ao livro. Em termos históricos, o autor está visivelmente atrasado, e isso é só um dos problemas que vejo. Se você discorda, gostaria muito de ler ou ouvir sua defesa dos pontos críticos que apresento no texto.

Por enquanto não dispensei o Rook,não por inteiro, espero ler ainda "A Arte Moderna e a Morte da Cultura".

Porém, quanto a "Arte não precisa de justificativas", continuo achando um texto contraditório e atrasado, portanto, um desserviço para a maioria. Um bom exemplo é a letra recente do Palavra Antiga que você deve conhecer. Bem influenciados pelo autor, fizeram um hino à divisão entre sagrado e profano, só que desta vez, com aparência "cult".

"Eu leio Rookmaaker, você Jean Paul Sartrê, eu fico com a escola de Rembrandt você no dadaísmo de Berlim, eu monto o paradoxo no palco. Você anda zombando da Cruz"

Gostaria muito da sua opinião, ela é relevante e importante para mim.

Um abraço.

L'Abri Brasil disse...

Oi Leo,

Antes de qualquer coisa, gostaria de lhe parabenizar pelo interesse e conhecimento em artes, que é tão incomum em nosso meio.

Pois bem um ponto que não entendo em sua crítca é a seguinte. Rookmaaker está "atrasado", como todos os cristãos, etc... o que vc quer dizer com isso? Seria o pensamento das artes uma evolução em profundidade e insight? Certamente, Rookmaaker estava a par de todos os movimentos de arte contemporânea, e conhecia como poucos as teorias estéticas de abstracionistas como Kandinski, Paul Klee, Mondrian, Pollock, etc. Porém, em sua análise histórica, a partir de uma filosofia específica (Wetside Holandesa), que é vastíssima, observava uma clara reação moderna às temáticas e ao aprofundamento do olhar humano para a realidade da vida, das pessoas, de Deus, etc. O tema é amplo, mas apenas afirmo que a resistência de Rook ao abstracionismo não pode ser avaliada como atrasada (argumento que julgo fraco em todos os sentidos, como se o processo histórico fosse em si árbitro de algo), mas procedente de uma análise cuidadosa e erudita. Tanto foi que seu livro sobre ate moderna, o que quer ler, foi considerado o livro do ano em idos de 1970.

Outro ponto de sua crítica que é confuso é o entendimento do sentido de justificativa em Rook. Ele defende, com este ponto, a legitimidade e diginidade da arte como potencial inscrito na realidade criada, devendos er cultivada intdependentemente de possíveis arbitrariedades eclesiásticas, mercadológicas, políticas, enfim. Rook tem em seu argumento uma fundamentação para a arte que nenhuma teoria não-cristã sonharia em possuir. É reconhecer a realidade criada, seus potenciais, e o mandamento de cultivo por pate de Deus como tarefa profundamente humana. Agora, quando coloca que devem haver normas para a arte, só está refletindo sua convicção de que a Arte, tendo seu núcleo de sentido irredutível (soberania de esfera), está ligada à normatividade da estrutura criada, a qual não temos acesso completamente (a coisa em sí), mas podemos abstrair de forma imperfeita. Ele, enfim, rompe tanto com o Arte pela Arte, quanto com o Arte para "tal fim". Mais uma vez, este insight não pode ser prcebido somente pela leitura do livro comentado. Portantro, sua análise é direcionada à arte em geral, e não às belas ares, e não há polaridada alguma quando se entende o contexto de irredutibilidade do estético e normatividade em conexção co a estrutura criada (insights da tradição cosmonômica que compartilhava).

L'Abri Brasil disse...

Em relação ao que definiria o belo e o estético, existem muitas discordâncias entre teóricos estéticos cristãos e não cristãos à posição de Rook. Pois tendia claramente à grande tradição, que remonta à Pitágoras e a ênfase na harmonia e proporção. Mas mesmo aqui, sua análise é rigorosa, e nunca batera o martelo dizendo, é isto. Mesmo assim, teóricos expressivos, como Wolterstorff, Gordon Graham, Jeremy Begbie, Calvin Seerveld, e Zuidervaart dialogam com Rook com altíssimo respeito, como aprendendo de alguém que dedicou grande parte da vida na tarefa de impulsionar a arte no terreno árido cristão. Respeito que parece-me que em sua análise de 1 página não existe em algum momento. Podemos dizer com certeza que Rook re-introduziu, com pouquíssimos, a arte no pensamento cristão (reformado) após mais de dois séculos de negligência.

Quanto aos detalhes que acusa Rook rapidamente de simplismo, tb aconselho mais aprofndamento, como no caso da senhora que incentivoua largar a carreira e Louis. Rook conhecia pessoalmente o contexto do Jazz americano, e acompanhava a carreira de todos estes artistas. PEsquise e saberá que Louis se rendeu ao mercado e abandonou seu estilo como Rook defende.

O que o incentivo, Lança, é a reconhecer que o vulto que pensou dispensar em sua breve crítica é maior do que faz parecer. Por ser desconhecido no Brasil, todos terão tal tendência ao ler sua crítica. Mas sempre cabe, ao anaisar um escritos, primeiro, autoridade na análise, e sempre, mas sempre, respeito e humildade.

A Ultimato, ao lançar Rook, não apenas esta fazendo um grande serviço ao universo de artistas cristãos, mas promovendo um debate sadio com outras tradições (que me parece a sua), aberta à discordância.

Bom, creio que passa por aí minha percepção de sua análise de Rook, e estou aberto a aprofundar no diálogo e em nossas discordâncias ou convergências.

Abraços,

Rodolfo Amorim

L'Abri Brasil disse...

Leo,

Não posso deixar de comentar tb sobre sua visão da música do Palavra Antiga.

Leo, de onde você tirou que ali há divisão entre sagrado e profano? Se tem algo que não existe naquela letra é isso mesmo. Aquela divisão é a velha e bíblica alusão à antítese entre o mundo e o Reino de Deus, entre a carne e o Espírito. Esta tradição das duas cidades vem desde Paulo e João, passando por Irineu e Agostinho, perpassando a Reforma e toda a reflexão cristã posterior.

Para o Cristão, é óbvio, não há divisão entre sagrado e secular, e os meninos do Palavra Antiga sabem disto como poucos, mas no mundo existem dois Reinos. E se não houver o mínimo discernimento aí, acabou-se a fé.

Agora, se a reflexão de uma sabedoria cristã milenar for também algo "atrasado", ficamos em situação difícil, pois não compartilharia comigo pressupostos comuns.

Abraços,

Rodolfo Amorim.

Leo disse...

Olá Rodolfo,

Fico muito feliz com suas respostas e abertura.

Reconheço primeiramente, que minha crítica possui vários excessos, faltando em alguns pontos humildade e respeito. Reconheço também ser um amador (com todos os horrores e delícias que a palavra contém). Como jovem, tenho muito ainda o que aprender.

Tirando os excessos que em nada acrescentam, há questões importantes que defendo e que gostaria de continuar partilhando e discutindo com você.
A primeira delas é sobre o atraso que a posição de Rookmaaker sobre o abstrato, neste livro, representa para mim.
Não vejo a história da Arte a partir de uma linha evolutiva, porém, como em toda área de conhecimento, podemos identificar historicamente a entrada de novos códigos de linguagem que alteram sensivelmente o campo em questão. Independente de gosto pessoal ou teológico, o conhecimento destes novos códigos e a maneira como eles serão assimilados e transformados posteriormente, é de uma importância estrutural e básica. Rook, possivelmente conhecia as trasformações e as novas inserções que os movimentos de vanguarda operaram.
O problemático e atrasado é que, em primeiro lugar, o desprezo que ele reproduz em seu texto contra o abstrato, e possivelmente, contra toda a Arte Moderna, vindo de um cristão reconhecido em seu campo e direcionado a cristãos em formação neste mesmo campo, gera no mínimo, o mesmo desprezo e desinteresse pelo legado da arte moderna e suas consequencias na arte contemporânea. O mesmo desprezo que a letra do palavra antiga pode gerar por Sartre e o dadaísmo, como coisas menores e até malignas. Coisas típicas de gente que "zomba da cruz", coisas que cristãos não devem perder tempo em fruir. Este mesmo erro é muito comum na universidade por parte de muitos professores. O sujeito discorda ou desgosta de um autor e passa a desprezá-lo perante os alunos que deveriam estar estudandoo para entender os pontos positivos e negativos deste autor.

Ao meu ver, dado a pobreza cultural do nosso meio, precisamos entender primeiro a contribuiçao de autores como Sartre e movimentos como o dadaismo e a abstração. Como formadores de opinião, precisamos incentivar, não desestimular o conhecimento e a fruição em um meio hiper-carente.

O segundo motivo pelo atraso é de ordem mais conceitual.
No livro Rook defende que o abstrato é ruim por ser uma negação da realidade, e pelo que estou aprendendo acerca das convicções deste autor, a Arte Moderna para ele não representa bem e dignamente a realidade criada.
Esta é uma visão simplista e equivocada acerca do abstracionismo e demais vanguardas. Ora, o realismo de Courbet, que abriu as portas para o que históricamente conhecemos como modernismo na Arte, apresentava a realidade em fragmentos. O cubismo mais tarde irá apresentar uma figuração também fragmentada, e nem por isso diminuida, haja vista que o ideal aqui, era mostrar além do que a máquina fotográfica podia, em sua realidade chapada. O abstracionismo, por sua vez, longe de ser uma fuga da realidade, como sempre defendeu o senso comum, é só mais uma tentativa de abordar novos fragmentos da realidade, como o som, pretendido por Kandinsky, ou as emoções em sua essência, pretendido por Kazimir Malevich. A realidade criada é mais ampla e complexa, vai além do que o olho pode ver. O dadaísmo, posto em cheque pelo palavra antiga, é o primeiro movimento a questionar, não sem uma boa dose de sarcasmo, o próprio sistema que a arte está inserida. Pessoalmente, identifico a pessoa de Jesus muito mais como um dadaista, do que um discípulo de Rembrandt. .

Além disso, a partir da década de 60,com o esgotamento do construtivismo, em partes, temos o retorno do figurativo. Mas não como antes, trata-se de um novo realismo na história da arte que se desdobra até hoje. Se a arte contemporânea também nao reproduz bem a realidade criada, sinto muito por aqueles que passaram o resto de suas vidas fruindo um impressionismo requentado frio.

Leo disse...

Você diz que,o conceito de justificativa em Rook, tem a ver com a idéia de não arbitrariedade frente a arte, o problema é que, o mesmo autor que defende isso, impõe várias arbitrariedades que ele prefere chamar no livro de diretrizes. Você realmente pensa como o autor que, Mozart é inadequado na igreja? Você também pensa que a paixão nao pode ser representada em um musical?
Não acha isso atrasado, mesmo na década de 70, mas sobretudo hoje?

Enfim, sobre a questão da divisão sagrado x profano, reino de Deus x reino do mundo...
Acredito que o reino de Deus está dentro daqueles que genuinamente o seguem. Para estes, todas as coisas são puras, todas as coisas do mundo podem refletir ou servir de questionamento acerca do Reino, haja vista que é a minha consciência de cidadão do Reino, o que determina as coisas e não as coisas me determinando. Sendo assim, leio Sartre e Rookmakeer, sempre filtrando, não foi isto que o apóstolo recomendou?
Existem dois reinos, mas para quem já vive o Reino é como se houvesse apenas um, repito, todas as coisas são puras para os puros. Esta divisão entre autores do reino de Deus e autores do mundo é a mesma divisão que nosso meio está tão acostumado desde a influência grega que você conhece.
O principal publico do palavra antiga são jovens universitários e a banda tem o intuito de ser relevante no mundo, para as pessoas do mundo, você não acha que esta letra não acaba aprofundando as diferenças entre cristãos e o resto do mundo, ao invés de incurtar? Penso sempre nos meus amigos da filosofia, fica difícil recomendar esta musica, de uma banda que gosto e tenho muito respeito.

Quanto ao Louis, conheço sua obra e defendo que ele jamais abandonou seu estilo. Ao contrário, quando do surgimento do bebop de Parker e Gillespie, Louis foi criticado por manter seu estilo e não aderir a nova onda que tomava conta do jazz naquele momento. A maneira como Rook fala de Armstrong só demonstra que o autor caiu no mesmo erro em que eu, pecou pela falta de respeito.

Bom, declaro aqui mais uma vez, o quão grato fico, por você entrar nesta discussão comigo.

Um abraço,

Leandro.

Rodolfo disse...

Sobre seu comentário tocando a questão do Reino, sugiro que reconsidere a questão. Segundo as Escrituras, existe um conflito entre reinos que permeia toda a criação afetando movimentos culturais, igrejas, artefatos culturais em geral, procedendo diretamente da direção religiosa do coração humano. Quando é dito que tudo é puro, é óbvio que isto não inclui as produções culturais humanas, carregadas de distorções em sua percepção do mundo, da vida, de Deus, etc. É óbvio que os Cristãos também estão contaminados por suas distorções. Mas permanece o que é bom, o que é mau, etc... e nossa capacidade de emitir tais juízos de valor é colocada como uma responsabilidade.

Quanto às diretrizes de Rook, novamente toco o ponto de sua noção do contato da arte com a realidade em seus laços multifacetados. Concordo plenamente com ele quando diz que certos estilos não comportam certos temas, e que certos contextos são inapropriados para certos estilos, etc. Mas este ponto exigiria introdução de tópicos como uma ontologia do cosmo e das ações humanas, a diferenciação de aspectos da realidade e suas expressões temporais, etc, que fundamenta muito da teoria de arte de Rook. De forma breve, em Rook e em toda sua tradição, o artista é apenas um servo na criação, com suas funções, limites, normas a cumprir, etc... como um professor, um político, um cientista, que têm muito claras as definições do que são chamados a fazer, e que não deveriam extrapolá-las para que outros não sofram consequências negativas. Os artistas não são menos que os demais, mas também não são mais. A classe atual, no entanto, ainda tem um pouco de dificuldade em lhe serem tocadas os fundamentos de sua vocação. Isso é triste. A idéia de expressão pura da subjetividade é pobre demais para ser sequer discutida. Este ponto é fundamental para Rook, e o grande pilar a ser destruído se o artista quiser voltar a ter uma vocação humana e digna com os demais.

Quanto ao Louis, creio que um pouco mais de pesquisa de nossa parte pode esclarecer mais o ponto.

Neste link existem sugestões de leitura sobre a obra e pensamento de Rook, bom para um aprofundamento: hhttp://ultimato.com.br/sites/labrarte/2011/03/10/bibliografia-sobre-hans-roelof-rookmaaker/

Leo, obrigado por suas opiniões, e espero um dia sentarmos e bater um papo amigo sobre este e outros temas.

Abraços,

Rodolfo Amorim.

Rodolfo disse...

Oi Leo,

Cara, perdão por demorar tanto a responder seu último comentário. Andei fora de BH e estou numa correria esquisita.

Bom, não vou me alongar em responder alguns de seus comentários. Mas vale pontuar algumas observações.

Primeiramente, quando Rookmaaker critica o movimento moderno, não o faz como uma tentativa de retorno a estilos e movimentos antigos. Ele sempre defendeu a necessidade de entender o contexto contemporâneo, seus estilos e formas de expressão. No entanto, reconhece que a arte de um tempo reflete mais de sua percepção de realidade do que estamos dispostos a reconhecer. E em sua análise cultural e histórica (que, mais uma vez, é mais penetrante em seu corpus do que expõe em seu livreto em questão), descreve a dificuldade em correntes contemporâneas em receber a realidade como uma dádiva em sua inteireza (e aqui não se relaciona com o realismo impressionista ou de Courbet), mas um realismo mais profundo, que reconhece a realidade de uma criação, de seu sentido, da narrativa que lhe fornece uma interpretação fiel. Rook defende este olhar, e não o estilo ou formas contemporâneas. E em sua análise - e aqui ainda estou com ele, até que me ofereçam uma proposta mais fiel sobre os movimentos culturais do séc. XX - ele aponta a adoção de uma percepção que abraça o fragmento, o absurdo, o subjetivismo, a relatividade de tudo, incluída a arte. Por isso Rook defende Roualt e Chagal como exemplos d expressões "modernas" de um olhar mais rico sobre a realidade. O abandono desta realidade está, por exemplo, no abandono de Franz Marc de suas obras figurativas e a adoção do abstracionismo.

Quanto à questão de fechar às pessoas, por meio de críticas culturais, a possibilidade de exploração de temas ricos e necessários, não creio que Rook, ou o Palavra Antiga, façam isso. No caso de Rook, e creio tb do PA, o que ocorre é a proposta e o delineamento claro de uma outra rica tradição de reflexão sobre o real, com suas críticas, diálogos, confrontos e acolhidas culturais. Aqui Rook é realmente pós moderno, pois opera a partir de seu campo hermenêutico referencial reconhecido e emite julgamentos claros sobre a ordenação de valores e outros olhares na cultura. E em nenhum momento o defende em termos de neutralidade filosófica ou racional. Os modernos, sim, tendem a querer estar acima destes juízos preconceituosos, evitando confrontos e alianças culturais. Os que não possuem uma tradição de reflexão têm, de fato, mais facilidade de estarem abertos a tudo. Tendem a ter a cabeça tão aberta que lhes cai o cérebro. Este não era o caso com Rook.


... quando tento postar a segunda parte do comentário, a primeira é excluída. Tentarei fazê-lo em breve.

L'Abri Brasil disse...

Cara,

A segunda parte saiu aí em cima... rs

Aguardo seu comentário.

Abs,

Rodolfo.

André Fernandes disse...

Desculpe minha ignorância, mas não tive paciência de ler sua postagem até o fim como você teve pra ler o livro e criticar.
Mas penso que você não entendeu de fato a mensagem do livro.
Desculpe novamente, mas também estou sem paciência de explicar o que penso.
Resumidamente creio que a Arte pela Arte, fala sobre a pureza da arte, fala sobre a arte que é uma expressão do artista, independente de financiamento, crítica, modismo, religião.
A arte é uma expressão pessoal do artista sobre oque ele pensa ou senti. Se este artista sabe apreciar a Vida se ele dá ouvidos a Verdade e dessa forma acaba conhecendo o Caminho, então é inevitável que sua arte independente de tudo fale por si só sobre essas coisas.
Desculpe minha ignorância novamente. Este é um tema que me interessa muito apesar de conhecer pouco. Obrigado.

Leo disse...

Caro Rodolfo,

Desta vez eu é que lhe peço desculpa na demora em responder e pelo problema aí nas postagens. Estive fora por quatro dias sem acesso a internet e ainda estou aprendendo a lidar com a edição neste blog.

Creio que muita coisa mudou desde que escrevi minha crítica ao livro. Se fosse fazê-lo hoje seria em um tom de mais humildade, respeito, e de forma mais curiosa do que arrogante.

Em meu comentário no Arte em Foco, também não fui feliz na relação que fiz com a estética nazista. Entenda que em momento algum associei você ao nazismo diretamente (pelo amor de Deus), a única relação possível que tentei fazer, em um momento inoportuno, está na adoção de um juízo de valor estético, ancorado em Uma Verdade, que considera como degradante, pobre, desencantado, etc, outros modelos estéticos.
Pelo tom que tenho visto nas palavras de Rook e Kuyper acerca do uso ilegítimo da arte, não seria espantoso, caso tivessem a oportunidade, se eles colocassem toda esta produção ilegítima em uma grande fogueira redentora.

O problema todo aqui em nossa discussão é que partimos de paradigmas muito diferentes e até antagônicos. Eu não acredito que o Calvinismo ou o Neo-calvinismo seja a única ou a melhor forma de se ler o mundo, para começar. Acredito por exemplo, que a necessidade calvinista, (me corrija se estiver errado) de explicar Deus racionalmente, é um verdadeiro tiro no pé, haja vista que, a pós modernidade não se ancora mais na racionalidade e seus parâmetros lógicos de aferição. Não sou relativista, mas acredito na possibilidade da verdade ser plural e na coexistência de contrários que não se contrapõem, mas se enriquecem. Enfim, sou um grande admirador da boa arte, seja clássica, moderna ou contemporânea, crente de que, todo movimento possui sua relevância, nos ajuda a compreender a vida e, dada a parcela de subjetividade contida em todo trabalho, se relaciona de forma diferente com cada pessoa.

Partindo destes pressupostos, não posso concordar com afirmações do tipo:

“Indiscutivelmente, a questão central que caracteriza todas as investigações Rookmaaker era o problema do significado. Havia estruturas de significado no mundo, às quais ele chamava de “realidade.” Ele acreditava que a história veio se desdobrando desde a criação da humanidade e no seu efeito sobre o mandato cultural de Gênesis 1:26-31. Quando os artistas tentam se rebelar contra as leis da criação, eles violam sua estrutura interna e, consequentemente, acabam em absurdo” (...)

“Apesar de muita coisa no Ocidente ter ido em direção à “morte” (palvavra encontrada em todos os seus escritos e frequentemente ouvida em l’Abri), a direção final é positiva. A Reforma foi um ponto alto onde a corrente neo-platônica do ser foi destruída, sendo substituída por um entendimento mais saudável de criação e dignidade humana. Os paisagistas holandeses do século 17, juntamente com a obra de Rembrandt, marcam o ponto alto nesse desdobramento até então. Desde então, as forças da secularização assumiram o controle. Mas nada impede o progresso e uma nova Reforma”. (William Edgar)

Leo disse...

Rook e outros neo-calvinistas, se colocam como os conhecedores das leis da criação e a partir daí têm o direito de deliberar quando estas leis são violadas e quando não, sentem que possuem a obrigação de redimir a cultura, pois somente eles detêm a verdade em seu juízo de valor. Eu posso estar errado, mas acredito que a realidade criada e suas leis são bem mais complexas do que isto. Sem falar que, para o calvinista o baralho, a dança e o teatro já foram manifestações ilegítimas, não sei se continua sendo, mas o mesmo argumento é utilizado para legitimar ou não certos estilos e formas. Particularmente, vejo esta postura como empobrecedora, porque acredito em diferentes formas de se ler a realidade, e uma realidade que comporta o fragmento, o absurdo, o subjetivismo, o conflito, o político, etc.

Não sei se você compareceu a Bienal de São Paulo ano passado com o tema Arte e Política, foi uma grande oportunidade de perceber a multiplicidade daquilo que conhecemos como política. Em meio a instalações, arte conceitual, vídeo, fotografia, performance, abstrações e absurdos afins, saí de lá, creio que não apenas eu, com um conhecimento expandido e aprofundado sobre arte, política, passado, presente e futuro, sempre com a possibilidade de ler tudo isto sob a ótica do Evangelho.

A impressão que tive do olhar calvinista sobre a arte e permaneço tendo, é de uma desconsideração que beira à arrogância e se baseia em uma verdade absoluta e fechada, com juízos de valor que valorizam a arte grega como grande mãe e raiz, sob a qual todos devem se voltar ou espelhar. Sendo que, qualquer tentativa de fuga desdobrará inevitavelmente em absurdo.

Agradeço as referências que você me mandou. Agradeço também sua paciência e humildade em discutir estas idéias sem apelar ao “ad hominem”. Espero mesmo podermos sentar um dia e trocar mais informações.

Um grande abraço,

Leandro.

Dayse Carneiro disse...

Olá, Leo. Meu nome é Dayse Costa
Não li o livro do Sr. Rookmaaker.
Li seu texto crítico e os comentários.
Se esse autor faz diferença para os cristãos artistas. Ótimo para eles.
O importante é que em nenhum momento eles, os cristãos artistas e o Sr. Rook, farão diferença tanto para a Arte quanto para o Sistema da Arte.
A não ser se decidirem queimar arte para trazer o decoro ao mundo

Rodolfo disse...

Oi Leo,

Reconheço que discutir sobre arte é complexo, e estou aberto a aprender com outras visões. Não creio que haja uma teoria estética que satisfaça inteiramente nossa necessidade de entender melhor a arte e suas ricas manifestações na realidade, uma dádiva divina.

Quanto à tradição calvinista e neo que comentou, não há ali uma tentativa racional de entender a Deus e suas leis. Pelo contrário, desde o início (com Calvino) há uma afirmação da necesidade primeira da fé para orientar o entendimento, o que é obra do próprio Deus. O neo-calvinismo reafirma isto, e em nenhum momento reflete a arrogância conginiva moderna com uma visão superestimada da racionalidade humana e sua capacidade de inferir leis universais que transcendam tradições específicas de reflexão e intepretação da realidade.

O que os neo-calvinistas têm é uma coragem ousada, realmente pós-moderna, de se situar dentro de uma tradição e defender sua forma de interpretação do real (que, novamente, não procede de um princípio racional universal). Isto soa a muitos cristãos contemporâneos como arrogância cognitiva, mas é apenas uma afirmação do direito de ter posições sobre a vida e as coisas. O que os ditos pós-modernos de plantão, principalmente os politicamente corretos, sobretudo da nova esquerda, sabem fazer com propriedade quase violenta.

Dentre os pontos da tradição neocalvinista está a afirmação da possibilidade humana em todos os campos de criação se dá pela imposição sobre a criação das leis do Criador. Mas leis, aqui, têm um sentido de habilitação para algo mais pleno, e não de restrição. A vida biológica só é possível pela organização de matéria inorgânica em uma limitação complexa de seus elementos físicos. A liberdade da lei implica a dissolução da vida, e não uma manifestação mais plena de realidade. E em diversos níveis da realidade, isto pode ser observado, como entre os aspectos biótico e sensitivo, sensitivo e lógico, lógico e histórico, este com o simbólico, etc. Amar a Deus e ao próximo em distintos contextos significa discernir a vontade de Deus nos princípios que estabeleceu naquele contexto, ainda que esta tarefa seja imperfeita.

Porém, na tradição de Dooyeweerd e Rookmaaker, não existe a noção de uma realidade fixa com essências passíveis de serem abstraídas racionalmente, mas uma dinâmica realidade, que inclui a história e suas distintas positivações dos princípios da sabedoria divina. A busca de definições do que é o estético e de normas estéticas serve, neste contexto, como forma de reconhecimento da diversidade da realidade e distribuir de forma justa o poder disperso na criação, que ultimamente pertence a Deus. Não fazer estas distinções (imperfeitas), implica em manifestações tirânicas na realidade, como na absolutização de certos aspectos no campo teórico (fisicalismos, biologismos, psicologismos, esteticismos, etc) e seus reducionismos, e opressões institucionais na formação histórica humana (pelo estado, mercado, arte, igreja etc). Ou seja, o que há na tradição de Rookmaaker é a negação de abusos possíveis, seja de cognição ou de imposição institucional . Na verdade, a visão de poder nesta tradição faz até mesmo Focault parecer uma criança inocente. E aqui, Leo, visões opressoras são impossíveis, sendo afirmada, em seu lugar, uma saudável e verdadeira pluralidade societal e teórica.

Rodolfo disse...

Bom, toquei estes pontos pois reconheço o temor que muitos cristãos hoje têm de qualquer afirmação sobre normas e leis. E, de fato, reconheço que alguns cristãos crêem na possibilidade de implementar teocracias cristãs, de impor valores eclesiásticos sobre o estado e sociedade, enfim... neste sentido Kuyper, Rook e Dooy estariam no campo libertário.

Mas o erro, no outro extremo, é impedir que se construa qualquer crítica cristã específica sobre a realidade, incluindo as artes, sob a pretensa afirmação de um amor cognitivamente humilde. Este tipo de amor, sim, favorece opressões de todos os tipos, e se torna frágil presa de totalitarismos, como o de uma sociedade de consumo pautada em uma ética fortemente hedonista, ou em esteticismos de gente que não quer prestar contas a ninguém e a nada.

Quando Rook aponta direções para as artes, temos de entender este contexto filosófico e da tradição a que pertence, pois as coisas passam a fazer mais sentido e a dissipar alguns equívocos. E a norma básica de tudo é, segundo ele mesmo, declara, o amor a Deus e ao próximo.

Agora, quanto ao estilo moderno e suas formas, como arte conceitual, instalações, etc. não creio ser um problema para Rook (ainda que não tenha testemunhado os desdobramentos das últimas três décadas), mas apenas os mundos (worlds of art) que informam muitas produções contemporâneas (works of art), que geralmente compartilham de uma tradição hipermoderna, que apenas colhe os frutos do fracasso moderno, sem apresentar verdadeiras opções.

Bom, acho que é isto. Vejo que o blog caminha em outros temas, e não quero que nós fiquemos agarrados neste tópico. Mas fica a vontade de um dia batermos um papo sobre este e outros temas importantes, e o reconhecimento de minha necessidade de inteirar mais em torno dos temas contemporâneos de arte.

Abraços,

Rodolfo Amorim.

Leo disse...

Bom, essa série de comentários serviu para esclarecer muitos pontos e confundir outros. O que vi no Rook de "A Arte não precisa de justificativa" foi a tentativa de defesa de uma teoria estética que exclui em muitos aspectos outras interpretações e se ancora em meio que uma onto-teologia calvinista. Ao longo dos comentários você disse não ser rookmaakeano estéticamente e consequentemente termina por dizer:

"Não creio que haja uma teoria estética que satisfaça inteiramente nossa necessidade de entender melhor a arte e suas ricas manifestações na realidade, uma dádiva divina."

É aqui que encontramos nosso ponto de concordância e igualmente nos colocamos abertos.

Estou escrevendo um texto com minha opinião sobre arte e fé, e em breve postarei aqui. Realmente ficar agarrado neste tópico não é o ideal, mas quanto ao tema, espero que possamos sempre compartilhá-lo, será sempre um prazer.

Abraços!

Leo disse...

Neste texto fica mais claro algumas opiniões acerca do assunto:


http://leandrolanca.blogspot.com/2011/08/alguma-opiniao-sobre-arte-e-fe.html

Rosemberg Fernandes disse...

Olá! Gostei da crítica. Mas o que mais chamou minha atenção foi o seu destaque para a data da publicação do livro. Sou Cristão Reformado e, realmente, um livro de autor cristão dos anos 70's sobre arte, ainda deve estar impregnado de puritanismo.